Tenho a sensação que este meu dia, pelo menos algumas partes, são estranhamente semelhantes a uma outra sexta-feira muito bem situada temporalmente pelo meu (in)consciente.
Podem ter sido os mesmos pensamentos de suspensão e espera, a esperança na incerteza.
O que vale é que amanhã já é sábado e destes tenho muitas boas recordações por onde escolher.
Já desisti de fazer planos, de pensar no futuro porque nos últimos tempos as coisas não têm acontecido como previa. Não têm deixado de acontecer mas tenho-as alcançado por vias e travessas e não pelas estradas principais e avenidas que estava à espera.
Tenho vivido muito mais o presente, (sei que continuo a ir visitar vezes demais o passado), mas o futuro nem em traços muito gerais. Claro que gostaria de saber como vou estar daqui a cinco anos mas já desisti até porque a bola de cristal não tem dado grandes respostas.
Basicamente não sei como será o meu amanhã, próxima semana muito menos.
Não estou à espera de nada e posso desfrutar do agora. E sem prever, as coisas acontecem.
Ainda penso em ti. E não devia. Ultimamente, não sei porquê, tenho pensado.
No que poderia ter sido. Como estás. De que falaríamos. Se me reconhecerias na rua.
Queria dizer-te que vou estar na mesma cidade que tu, para irmos tomar um café. Mas sei qual vai ser a tua reacção e não a quero viver outra e outra vez. Porque já desisti.
Para saber como as coisas são, para não pensar nos “ses”, simplesmente, para não ter mais em que pensar.
Hoje ligaste-me. Tu, que não dás sinal de vida há tanto tempo. Senti o meu coração, duvidei dos meus olhos. Atendi, mas não respondeste. O telemóvel ligou sozinho?
Por mais que queira esquecer estas coisas não ajudam.
Eu adoro os desenhos animados da Disney, continuo a vê-los e acho muito educativos. Mas hoje chegou-me esta versão e não pude deixar de achar piada.
“Como é possível exigirmos juízo a alguém se desde pequenos que andamos a ver o Tarzan a andar nu, a Cinderela a chegar a casa depois da meia-noite, o Pinóquio a mentir, o Aladino ladrão, o Batman a conduzir a 320km/h, a Branca de Neve a namorar com 7 de uma vez e o Popeye a fumar algo não identificado!”
E numa ida às urgências com a minha mãe encontro-o.
Parecia estar a sofrer mas muito também devido à espera. Nada visível, lesão de surf, pensei. Dada a natureza da situação só notei o cabelo cortado, penteadinho, (sem relógio!) e nada mais.
O mais estranho é que quando começo a fazer doçaria prefiro-a ainda não totalmente cozinhada. A fase do bater bolos, mousses… Lamber o rapa, as pás da batedeira… A minha mãe diz que sempre fui assim. Andava sempre a pedir-lhe para fazer bolos para “ter uma oportunidade” antes dele ir para o forno.
Deve ser por isso que depois enjoo um bocadinho e já não ataco o bolo já feito. Ao menos compenso.
Há muito tempo que não ia a um casamento. Há tanto que nem me lembro do último. Talvez por isso tenha antecipado muito o momento. Ou por ser o primeiro casamento que vou de uma amiga.
Depois dos preparativos da indumentária (o cabelo, não foi exactamente como queria mas também não me ia estragar o dia) lá cheguei à igreja. Cedo, com medo de não ter lugar para estacionar, juntamente com o noivo.
Ela atrasou-se como manda a tradição. Ele andava frenético com a espera, com um sorriso nervoso.
Até que a marcha nupcial começa, e é cantada em latim. Ela vem sorridente. Vestido a combinar na perfeição com a personalidade. Até que algo me bateu. Estarei a ficar para trás? Certo é que nunca sonhei com o vestido branco como muitas meninas mas foi inevitável pensar se algum dia, ao menos, terei alguém à minha espera.
A menina das alianças corria com o cesto em toda a nave da igreja. E quando chegava ao altar voltava para trás, para recomeçar o exercício.
Atrás de mim, umas senhoras comentaram o chapéu da mãe da noiva.
O padre é primo da noiva. Veio de Boston. Missa em português americanado, com muita graça pela familiaridade com os noivos.
Reconheço algumas caras. Que vieram do Porto onde estudámos. Outras que reconheço por não me serem amigáveis em outras alturas. Acabo por cumprimentar toda a gente. As leituras falavam de compreensão, benevolência.
No caminho para a boda perdi-me dos outros carros. Ainda bem que pedi ao meu pai me mostrar o local no dia anterior. Cheguei lá.
Numa mesa com muitos (casais) desconhecidos mas gente simpática a conversa foi fluindo com a banda a preencher alguns silêncios. A comida tardou, a espera não cansou.
O bolo foi partido. A dança começou. Tinha chegado a minha hora de partir. Por todas as razões.
Não sei quem apanhou o bouquet nem a liga.
Cheguei a casa e tinha os meus pais à espera, preocupados com a minha condução nocturna por locais que não conhecia.
Notei a alegria crescente. No final da festa eles estavam realmente felizes. E eu também, por eles.
Sou uma romântica incurável, adoro histórias de amor, todas. As mais simples, de amor à primeira vista, primeiros olhares em lugares de filme.
E agora com as minhas viagens a trabalho, o aeroporto desperta-me aquela sensação de “procura”, mesmo que inconsciente.
Na última avistei um surfista. Gosto do ar descontraído deles, da filosofia… Basicamente porque sou o oposto. Menina certinha, cabelo alinhado… na sala de embarque estava eu com o meu livro e ele com uma revista de surf estrangeira, calções e t-shirt, cabelo claro… Dei mais atenção ao meu “homem americano” porque as probabilidades de nos entendermos seriam ínfimas. Apesar de gostar da descontracção comecei logo a pensar na trabalheira que seria limpar a areia do chão, da prancha na sala… Complicadinha, eu sei, além de estar a por o carro à frente dos bois…
No avião ele sentou-se à minha frente (sim, naqueles aviões mínimos os lugares não são marcados) e começou a falar com a hospedeira. Foi cumprimentar o comandante. Aparentemente já trabalhou na companhia aérea. Escusado será dizer que ouvi as conversas todas e o americano passou para segundo plano. O ter adorado o local, pelas ondas fantásticas, pela hospitalidade das pessoas…
A meio da viagem perguntou as horas à hospedeira comentando que detestava usar relógio, gostava de se sentir livre em todos os sentidos, de tempo, nos pulsos…
Nessa altura voltei definitivamente ao livro enquanto desatava às gargalhadas por dentro: eu tinha acabado de comprar um relógio no aeroporto porque não consigo viver sem relógio e o meu tinha-se estragado.
Há coisas que simplesmente se sabem que nunca resultariam.
Uma amiga enviou-me este texto. As razões dela… Agora não interessam…
Parei tantas vezes até chegar ao fim…
"Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.
Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.
Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por cima, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.
Oferece-lhe outra chávena de café com leite.
Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.
É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.
Ela tem de arriscar, de alguma maneira.
Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.
Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.
Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.
Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.
Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.
Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.
Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.
Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve."
(Texto de Rosemary Urquico, encontrado no blogue de Cynthia Grow. Tradução “informal” de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril.)
Ando numa fase zen, calma descontraída mas há dias em que a cabeça fica pesada com tantas coisas a pairar. De um lado para o outro, de importância relativa, tanto para pensar.
Hoje é um destes dias. Até o estômago anda às voltas.
Espero que a sensação vá como veio, rapidamente.
Era tão bom o cérebro ter um botão de Off ou pelo menos stand by.